25 fevereiro 2017

Foi um milagre

Depois de ler as dez razões do Padre Portocarrero de Almada, a minha conclusão acerca do mistério da eleição do Trump é aquela que ele, sendo Padre, deveria ter tirado. Foi um milagre.

Estou muito menos certo, é claro, acerca do que Deus quis significar ao produzir esse milagre. Mas algumas das possíveis razões dessa racionalidade divina estão contidas nos dez parágrafos do texto - ou talvez todas, e que se resumem numa só: a comunicação social democrática não exprime as verdades em que o povo acredita. É assim nos EUA e é assim em Portugal (*).

Quem avaliar um país sem sair de casa, somente por aquilo que se diz na comunicação social, e depois se der ao trabalho de viver uma vida normal nesse país - com o seu emprego, o seu relacionamento normal com outras pessoas, etc. - vai dar-se conta que o país real é exactamente o oposto da imagem que dele construiu a partir da comunicação social.

É assim nos EUA. É assim, e mais ainda, em Portugal, pela tendência que a nossa cultura, mais do que a americana, tem para levar as coisas ao extremo.

A América elegeu o mais impopular de todos os candidatos, tal como avaliado pela comunicação social. Este é o milagre, num regime em que se espera que seja eleito o mais popular.


(*) Um exemplo fresco. Responsabilidade política é irresponsabilidade. Já viu alguém ser responsabilizado por irresponsabilidade política?

o mistério Trump

Tomo a liberdade de transcrever aqui na íntegra o artigo do Pe Portocarrero de Almada, do Observador, pelo que me parece ser a sua importância.


A missão da teologia é explicar mistérios. Alguns, como a trindade e a eucaristia, são sobre Deus; outros dizem respeito ao mundo, como os da sua origem e do seu fim; e outros ainda referem-se aos homens e à sua misteriosa capacidade do bem e do mal. Cada ser humano é um mistério, mas alguns há que o são mais do que outros: é o caso de Donald Trump, o actual presidente dos Estados Unidos da América.
Diga-se o que se disser, a verdade é que Trump tem o condão de irritar muita gente, da direita mais conservadora à esquerda mais progressista. Ninguém gosta do seu estilo arrogante, do seu palavreado por vezes ordinário, do seu novo-riquismo de mau gosto, para já não falar da sua incrível melena. Como se explica então que tenha ganho a eleição presidencial?! Possivelmente não se explica, mas estas dez pistas talvez ajudem a compreender melhor o mistério Trump.
1º. Trump é a expressão do politicamente incorrecto: a sua eleição é uma reacção contra o sistema político que, em nome da democracia, asfixia a liberdade. Por isso os norte-americanos elegeram um político anti-sistema, em detrimento de Hillary Clinton, que era uma profissional da política, uma funcionária do sistema.
2º. Trump tinha praticamente toda a imprensa contra ele, com excepção da Fox News e do The Telegraph. Se Watergate foi, ao lograr a demissão de um presidente dos Estados Unidos da América, o auge do poder da imprensa, a eleição de Trump foi o seu canto do cisne. Foi sobretudo graças ao Facebook, ao Twiter e ao Instagram que Trump conseguiu fazer chegar a sua mensagem ao eleitorado. Uma imprensa livre é essencial à democracia, mas a parcialidade dos media na campanha eleitoral evidenciou os interesses políticos e económicos a que, por vezes, cedem alguns meios de comunicação.
3º. Trump tem ideias claras sobre a vida humana, o casamento e a família e está disposto a lutar por elas. Os partidos ditos conservadores têm, em geral, uma atitude tíbia e envergonhada, mas os partidos de esquerda têm uma agenda clara e não perdem ocasião para a implementar: liberalização do aborto gratuito; casamento e adopção por pessoas do mesmo sexo; barrigas de aluguer; eutanásia; etc. Trump não tem respeitos humanos no que respeita à defesa da vida, do casamento natural e da família, como se viu pelas medidas já tomadas em relação ao aborto.
4º. Trump tem uma relação diferente com os lóbis. Muitos governos vivem praticamente sequestrados pelos grupos de pressão, que são uma espécie de comissários políticos da democracia. Trump já deu a entender que, na América, manda ele, porque foi ele, e não esses grupos, por muito respeitáveis que possam ser, que foi eleito presidente.
5º. Trump não tem medo da iniciativa privada, se for a que melhor serve o bem comum. A esquerda privilegia a saúde pública e o ensino estatal porque, em teoria, são os que melhor servem o interesse nacional mas, na prática, porque herdou do marxismo uma concepção totalitária do poder e desconfia da liberdade e da iniciativa privada. Trump acredita no mercado mas, como o Papa Francisco tem alertado, a lógica do descartável é injusta e profundamente desumana.
6º. Trump manda mesmo e, por isso, demitiu a procuradora-geral interina, depois de Sally Yates ter questionado a ordem presidencial que proíbe a entrada nos Estados Unidos da América a cidadãos de sete países de maioria muçulmana. Também demitiu todos os embaixadores ‘políticos’, que tinham sido nomeados pelo seu antecessor e que não eram da sua confiança. É razoável que o presidente exija lealdade aos seus funcionários, desde que não extravase as suas competências, respeite a independência do poder judicial e a separação de poderes.
7º. Trump não tem uma visão utópica ou idealista do mundo. Quer contribuir para a NATO, cuja importância estratégica reconhece, mas não se a Europa não estiver interessada na sua segurança. Em relação ao Médio Oriente, é sensível às pretensões de Israel, tendo já decidido a instalação da embaixada dos Estados Unidos da América em Jerusalém, a capital do Estado judaico, o que certamente não é uma boa notícia para os palestinianos. Quer a paz mundial, mas não apenas com os sacrifícios do seu país.
8º. Trump é a favor da liberdade religiosa, mas não admite que ninguém, nem nenhuma religião, ponha em perigo a paz e a segurança dos cidadãos norte-americanos. É justo, desde que não viole o direito fundamental de qualquer crente a professar, privada e publicamente, a sua religião. Os muçulmanos não são todos potenciais terroristas, mas é evidente que esta religião é essencialmente guerreira e que há um terrorismo maometano, que decorre do conceito islâmico de guerra santa: a jihad.
9º. Trump é patriota e defende os legítimos interesses do seu país, nomeadamente através do muro na fronteira austral. Todos os Estados têm direito a evitar a imigração ilegal e é bom não esquecer que foi Bill Clinton, um presidente democrata, quem decidiu e iniciou a construção do muro, que já se ergue em mais de mil kms, cerca de um terço da fronteira com o México. E a verdade é que Obama, durante os seus dois mandatos, não o destruiu; nem Hillary, se fosse eleita, iria fazê-lo. Mas uma América fechada sobre si mesma pode levar ao ressurgir dos nacionalismos protecionistas, com graves prejuízos para a solidariedade internacional e para os países mais necessitados.
10º. Trump é arrogante, é certo, e o seu feitio não parece ser o melhor. Não são referências adequadas à sua função: é, como é óbvio, um perigo para o seu país e para todo o mundo. Na realidade, é preocupante que um homem, por vezes tão básico e imprevisível, esteja à frente da maior superpotência mundial. Mas não é o único…
Talvez o mistério Trump se explique pelo paradoxo que melhor o define: a arrogância da esquerda num político de direita. Por tudo isto e o mais que ficou por dizer, há razões para crer que a América ‘si muove’ e, com ela, o mundo. Se é para melhor ou pior, o tempo o dirá. Para já, há que rezar: God bless America!

22 fevereiro 2017

terroristas

Dois Conselheiros de Estado, actuando como "comentadores políticos", vendem informação confidencial aos écrans de duas estações de televisão, informação que é adquirida através do acesso privilegiado às fontes e à teia de relações pessoais que os seus cargos lhes proporcionam.

E põem o Estado em polvorosa com o caso CGD em que o próprio Presidente da República é visado. Como réplica, e para abanar ainda mais o Estado, surge agora o caso das transferências para países offshores no tempo do anterior Governo.

Não se pode dizer que o negócio dos dois Conselheiros de Estado seja original. O Presidente da República, enquanto Conselheiro de Estado, deu o exemplo durante anos.

Houve um tempo - era o tempo de Salazar - em que aqueles que queriam destruir o Estado eram chamados terroristas. Atacavam o Estado a partir de fora. A diferença é que agora atacam o Estado a partir de dentro.

O Estado democrático em Portugal não precisa de inimigos. Basta-lhe ter Conselheiros.

Cito o Jornal Oficial da Geringonça para constatar que o Parlamento está a ficar muito esganiçado.

Paz

Há semanas, procurei pôr-me aqui no espírito de F. A. Hayek - considerado o pai do liberalismo moderno - para procurar saber quais as interrogações que em 93 anos de vida dedicada à causa do liberalismo,  ele levou consigo para a eternidade.

Fi-lo com base no seu último livro ("The Fatal Conceit" e o subtítulo "The Errors of Socialism") e, em particular, com base no último capítulo deste seu último livro que tem o título sugestivo "Religion and the Guardians of Tradition". Este capítulo causou calafrios em muitos dos seus seguidores, como o próprio autor admite, mas ele resolveu, não obstante, incluí-lo. Trata-se do tema da religião que, desde Kant pelo menos,  está proibido aos intelectuais e cientistas, como ele.

Hayek acreditava que o capitalismo era um sistema económico muito superior ao socialismo, uma crença que não é difícil partilhar. Que o capitalismo assentava em certos valores ou tradições, como a propriedade privada, a honestidade, o cumprimento das promessas, etc. Que estas tradições - e aqui estava a parte irritante do livro - foram guardadas e trazidas à actualidade sobretudo pela religião.

Mas tendo chegado aqui, e perante a questão óbvia seguinte que era a de saber quem criou e para quê esses valores ou tradições, Hayek parou e remeteu o assunto para os teólogos:

So far as I am personally concerned I had better state that I feel as little entitled to assert as to deny the existence of what others call God, for I must admit that I just do not know what this word is supposed to mean. I certainly reject every anthropomorphic, personal, or animistic interpretation of the term through which many people succeed in giving it a meaning. The conception of a man-like or mind-liking being appears to me rather the product of an arrogant overestimation of the capacities of a man-like mind. I cannot attach meaning to words that in the structure of my own thinking, or in my picture of the world, have no place that would give them meaning. It would thus be dishonest of me were I to use such words as if they expressed any belief that I hold.
I long hesitated whether to insert this personal note here, but ultimately decided to do so because support by a professed agnostic  may help religious people more unhesitantingly to pursue those conclusions that we do share. Perhaps what many people mean in speaking of God is just a personification of that tradition of values that keeps their communities alive.
(op.cit., pp. 139-40)

O ponto importante aqui é o de um racionalista que prossegue o caminho da razão por onde ela o leva, até que chega o momento em que, tendo o caminho entrado no domínio da religião, ele pára à entrada, e recusa utilizar a razão para prosseguir o caminho.

O argumento de Hayek em favor do capitalismo ficou incompleto. Ele faz uso de uma razão amputada, que serve em certos domínios mas não em outros, como a religião. Fica-se mesmo na dúvida de que, sendo a razão incompetente para trilhar certos caminhos, se será competente para trilhar os caminhos que ele a fez trilhar.

Eu penso que Hayek, a despeito da sua honestidade, estava errado acerca dos limites da razão. O argumento, indo da frente para trás, tem continuidade racional.

É assim:

Quem criou a propriedade privada (vou cingir-me apenas a este valor de suporte ao capitalismo) foi o mesmo Criador que criou o sol, o mar e a lua. É Deus. Ao criar o sol, o mar e a lua Ele visava atingir certos bens para todos nós - ele visava o bem comum. Mas nem só de sol, mar ou lua vive o homem. Por isso, Ele também criou certos valores - um código de moralidade, chamemos-lhe assim - incluindo o da propriedade privada, sem os quais a nossa vida seria impossível.

E Deus, podendo assumir qualquer forma - como a do sol ou a da lua ou qualquer outra, no fim de contas Ele é o Criador de tudo - também pode assumir forma humana ou antropomórfica. Na realidade, a propriedade privada (e todos os outros valores) são-nos transmitidos por Deus assumindo forma humana, um argumento que concretizarei já a seguir.

O paganismo não estava totalmente errado quando adorava o sol, o mar ou a lua. Deus também está neles e também se revela através deles. Mas aquilo que o Cristianismo veio fazer foi integrar o paganismo numa verdade mais abrangente e centralmente humana.

Deus revela-se através do sol, do mar e da lua, mas revela-se, em primeiro lugar, a através das pessoas - e a figura paradigmática desta revelação pessoal é Cristo.  Existe Deus em cada ser humano e Deus revela-se mais através de cada ser humano do que através do sol, do mar ou da lua. O Cristianismo pôs a pessoa humana no centro da revelação e criou uma hierarquia onde vêm a seguir os outros elementos da natureza e as obras humanas.

O célebre Cântico ao Irmão Sol de S. Francisco de Assis exprime Deus em todas as obras da natureza, e não fosse o igualitarismo radical, tipicamente franciscano, que põe o homem ao mesmo nível do sol e dos animais, e seria uma descrição perfeita daquilo que pretendo afirmar. Falta-lhe, contudo, a hierarquia.

A propriedade privada foi criada por Deus e é revelada por Deus em forma antropomórfica. É-nos transmitida, em primeiro lugar, pela nossa mãe, embora também pelo pai e muitas outras pessoas, em uma miríade de episódios que ocorrem muito cedo na nossa vida.

Por exemplo, quando o irmão mais novo desata a chora porque o mais velho lhe tirou o brinquedo. Nessa altura, a mãe vai junto deles, tira o brinquedo da mão do mais velho e entrega-o ao mais novo com as seguintes palavras, dirigidas ao mais velho: "Dá esse o brinquedo ao teu irmão porque é dele". E depois, pegando num outro brinquedo que jazia abandonado no chão, coloca-o na mão do mais velho com as palavras: "Brinca com este porque este é que e teu".

Hayek recusou entrar no domínio da religião porque não se sentia capaz, mas também, talvez, por causa das surpresas que podia encontrar. E iria encontrar de certeza. É que o comportamento da mãe, que instila nos filhos o sentimento da propriedade privada, não é ditado por nenhuma consideração de eficiência económica.

Também não é por considerações de ordem económica que, chegada a hora do almoço, ela põe na mesa um prato para cada filho, e a respectiva comida lá dentro, em lugar de servir os dois filhos num prato comum (do ponto de vista da eficiência esta solução seria preferível porque com menos recursos serviria o mesmo fim, que era o de alimentar os dois filhos).

Nem o comportamento da mãe é ditado por qualquer perspectiva egoísta de bem-estar individual, porque é claro que a sua intervenção, nos dois exemplos citados, vai contra o bem-estar do filho mais velho, que queria era brincar com o brinquedo do irmão mais novo, no primeiro caso, ou deitar a mão à sua comida, no segundo.

A intervenção da mãe faz-se em nome de um bem muito maior, que não é necessariamente um bem para este ou para aquele, mas um bem para todos, um bem comum - a paz familiar. Ninguém consegue viver numa família onde os mais novos passam a vida a berrar ou porque os irmãos mais velhos lhes tiraram os brinquedos ou porque lhes deitaram a mão à comida que era devida a eles.

Paz para todos, que é um bem comum, e não eficiência económica, que é um bem geralmente privado, é que é a verdadeira razão pela qual Deus criou a propriedade privada. Que ela também promova a eficiência económica é um subproduto - e nem sequer muito importante - desta racionalidade original e divina.

21 fevereiro 2017

sem-abrigo mental

Sem Deus, sem Estado, sem fronteiras, sem compatriotas, sem família, como propõe a "Open Society Foundations", do George Soros, seremos mais livres?
NÃO!
Seremos menos livres e estaremos a caminho da escravatura, estaremos de volta à barbárie, quando a vida era "curta e brutal".
Deus garante a inviolabilidade da vida, o Estado aplica o direito, cujos próprios fundamentos remetem para a Lei natural (e para Deus), a pátria é a nossa casa, a comunidade com que nos identificamos e a família o elo mais forte à natureza e à eternidade.
Sem estes pilares sociais seremos uns "sem-abrigo" mental, à mercê de tudo e de todos, apenas livres na imaginação doentia de quem não sabe o que é a liberdade.

20 fevereiro 2017

O dia em que o PR decidiu enforcar-se

O episódio mais dramático relatado no livro de José António Saraiva, "Eu e os Políticos", é aquele em que Marcello Rebelo de Sousa, antes de uma reunião que iria ter lugar com Pinto Balsemão, fingiu enforcar-se num cortinado:

enquanto esperava numa sala, abriu inesperadamente a janela, saltou para uma consola exterior, puxou a fita do estore, enrolou- a à volta do pescoço e deitou a língua de fora, fingindo que se tinha enforcado. Mas quando Balsemão apareceu já Marcelo tinha recuperado a compostura.

Não estive lá para observar o que fizeram as outras pessoas presentes, mas presumo que Marcello Rebelo de Sousa só é hoje o nosso Presidente da República porque os presentes fizeram alguma coisa, muito provavelmente aquilo que eu faria se lá estivesse. Atirava-me a ele e tirava-lhe o cortinado do pescoço, nem que fosse à pancada.

Mais difícil seria explicar, quando os ânimos se acalmassem, a racionalidade da minha acção. Ter-lhe-ia dito que me opus a que ele se suicidasse porque a vida dele não lhe pertence só a ele, também pertence ao pai, à mãe, aos amigos, todos o tratam por meu ou por nosso.

-E tu... também sou teu... que apareceste agora aqui e eu nunca te tinha visto?,

poderia ele perguntar-me na altura e ter-me-ia deixado embatucado.

Mas hoje não, hoje eu teria a resposta.

-Sim, também és meu e nosso. És o meu e o nosso Presidente da República.

Ainda o imagino de língua de fora e cortinado ao pescoço, e eu a atirar-me a ele. Não teríamos Presidente da República se não fosse eu.

livres?

12 fevereiro 2017

o agradecimento

"Reitero que o agradecimento é a mais alta forma de pensamento e que a felicidade mais não é do que a gratidão duplicada pelo espanto."
G.K. Chesterton

11 fevereiro 2017

meu

A mãe trata o Chiquinho por meu filho.
Existe muito dela nele.
Sem ela, ele não seria o que é.
Durante os primeiros meses de vida
O Chiquinho não precisou de mais ninguém
Para viver e crescer.
Depois, ela deixou de ser suficiente.
O Chiquinho tem pai,
Que o trata por meu filho.
Se não fosse ele,
O Chiquinho não seria o que é.
Seria diferente.
O Chiquinho tem avós,
Tias, primos, irmãos.
Todos o tratam por meu.
À medida que cresceu,
O Chiquinho teve professores
Que o tratam por meu aluno.
Sem eles, o Chiquinho seria outro.
Amigos e colegas, que o tratam por meu.
O Chiquinho teria sido diferente sem eles.
Hoje o Chiquinho é Engenheiro
Lá na empresa tratam-no por
O nosso Engenheiro.
Com razão.
Sem aquela gente toda o Francisco
Não seria Engenheiro.
Quem é que consegue
Construir casas sozinho?
E quem é que lhe compraria as casas?
Hoje, o Francisco tem família,
Mulher e filhos.
A mulher e os filhos tratam-no por meu.
Meu marido e meu pai.
Sem ela e sem eles
O Francisco não seria a mesma pessoa.
O Francisco recorre a empresas
De telemóveis, automóveis, serviços
Todas o tratam por nosso cliente.
Sem telemóvel, o Francisco seria
Uma pessoa muito diferente.
E sem os seus médicos, sapateiros,
Barbeiros, padeiros, carpinteiros também.
Todos eles influenciaram a vida do Francisco
E por isso o tratam por meu e nosso.
Onde de início só dependia da mãe
Passou a depender da comunidade
De que a própria mãe faz parte.
Aquilo que o Francisco hoje é
É o resultado muito mais
Da comunidade onde nasceu e cresceu
Do que dele próprio.
Foi a comunidade (ekklesia) que lhe deu
Mãe, pai, avós, tios e primos
A mulher com quem casou,
Os professores e os médicos que teve
E também os clientes para as casas que faz,
E os arquitectos que fazem as casas com ele.
Os padeiros, os carpinteiros, os amigos,
Os fabricantes de telemóveis e de automóveis,
Até o padre que o casou.
Um dia o Francisco decidiu que a vida era dele
E queria ter o direito a pôr termo à vida.
Mas como,
Se o Francisco não se fez a si próprio?
A relação não é de propriedade.
É  de pertença.
O Francisco pertence a si próprio,
Mas pertence ainda mais à comunidade.
Sem ela, o Francisco não seria
Nada daquilo que é hoje.
Por isso, tanta gente na comunidade o trata
Por meu e por nosso.
E até quem  não o conhece
O trata por nosso concidadão.
Só a comunidade pôde fazer do Francisco
Aquilo que ele hoje é.
Ele não teria sabido fazer-se sozinho.
E que segredo (ou "tecnologia") possui a comunidade
Para fazer pessoas como o Francisco?
A tradição.
E quem governa a Tradição?
Alguém que quer bem às pessoas
De modo a fazer pessoas como o Francisco.

10 fevereiro 2017

O Chiquinho

Tenho estado a pensar
No dia em que o Chiquinho nasceu.
Há quem diga que foi um acaso,
Um acaso ele ter nascido naquele dia.
Mas, se é assim, houve outros acasos
Naquele dia e num curto espaço de tempo.

A maminha da mãe do Chiquinho deu leite,
Naquele mesmo dia.
Nunca tinha dado leite.
Deu pela primeira vez naquele dia.
Por acaso.
Podia ter sido quinze meses mais tarde.

E não é que o Chiquinho gostou?
Que acaso o Chiquinho gostar do leite!
Podia não ter gostado.

Mas o mais desconcertante
É ainda outro acaso.
O Chiquinho sabia mamar!
Sabia fazer os movimentos de sucção
Na maminha da mãe.
Ninguém lhe ensinou.
Mas o Chiquinho sabia.
O Chiquinho nasceu ensinado.

Tantos acasos em tão pouco tempo...
Não serão acasos a mais?
E todos na mesma direcção,
Favoráveis ao Chiquinho?
É que o acaso é aleatório,
Tanto lhe dá para o bem como para o mal.
Mas estes acasos
São todos para o bem do Chiquinho.

Não será mais racional acreditar
Que Alguém determinou:
"Chiquinho, vou-te dar vida no dia tal";
"E vou dar leite à maminha da tua mãe";
"E vou-te ensinar a mamar";
"E tu vais gostar"?

Para mim é.